Há mais de 500 anos nós não largamos o osso do cristianismo…

Todos os 23 jogadores do Brasil são cristãos fervorosos, dos quais 21 são evangélicos e dois são católicos. Todos os 23 pregam a palavra em campo ao agradecer por um gol marcado ou por uma defesa bem sucedida, oram ou rezam antes, durante e depois do jogo, em frente a uma audiência global de milhões de pessoas dispostas a seguir o exemplo. Evangelizadores planetários. Cristãos exemplares.

Entre os 46 jogadores alemães e holandeses, cerca de um terço é muçulmano, outro terço católico ou protestante (não há um único neo-pentecostal), enquanto o terço restante é composto de bahá’ís, budistas, agnósticos e ateus.

O Brasil é um país majoritariamente cristão, e a máquina governamental, embora teoricamente laica, é sequestrada por símbolos religiosos, com crucifixos espalhados por repartições públicas como o STF (a justiça não é cega se pende um pouquinho pro lado do cristão), e nosso sistema político permite (quando não obriga) concessões ao poderosíssimo lobby da Bancada Evangélica no Parlamento.

Alemanha e Holanda, por outro lado, são países em que a separação entre Igreja e Estado é levada tão a sério que mesmo líderes políticos como a chanceler Angela Merkel, líder da União Democrata Cristã, não mencionam Deus em seus discursos, num sinal de respeito a seus compatriotas de outras religiões ou de religião nenhuma. Além disso, fatias consideráveis de suas populações são ateias, agnósticas, ou de crenças não-cristãs.

Muito bem. Isso tudo só para perguntar: por que o Deus de Neymar, da seleção e de quase 200 milhões de devotos exemplares permitiu que um punhado de infiéis amorais nos vencesse de maneira tão humilhante? E duas vezes? E em casa? Por que é que nós, tementes fervorosos, somos um país atrasado, desigual, deseducado, inseguro, preconceituoso, enquanto aqueles descrentes (ou crentes no Deus errado) gozam de estabilidade social, segurança pública e níveis de escolaridade desconcertantes?

Há mais de 500 anos nós não largamos o osso do cristianismo, desde que ele nos foi imposto pelos portugueses. Temos o maior número de templos e igrejas do ocidente. Abrimos franquias nos mais recônditos cantos do Brasil, onde nem o Estado alcança. Pode até não ter escola, praça, água encanada, eletricidade, asfalto, mas lá estarão nossos abnegados bispos e pastores levando a palavra a quem precisa de pão. Filiais também pipocam em dezenas de países pelo mundo, mas principalmente naqueles mais atrasados que o nosso, em ritmo de fazer inveja ao McDonald’s. Igrejas prosperam com canais de televisão, best-sellers, alguns dos músicos mais tocados do País — e ainda assim, por alguma razão que a fé não explica, quanto mais descrente no Senhor é um país, mais avançada, pacífica e igualitária é sua sociedade. Qual será a relação, meu Deus?

 

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